Domingo, Maio 31, 2009

Rei-Poeta Al-Mu'tamid


O Otman telefou-me para me desejar boa-viagem a Portugal. Pressenti-lhe na voz uma ponta de emoção. Saudades do seu querido Marrocos, compreendi.
Porque o Otman é marroquino. Muçulmano praticante. Frequenta assiduamente a mesquita. Estuda o Corão. Não come carne de porco. É abstémio, não toca numa gota de álcool.
Pai de dois filhos, com um terceiro a caminho, uma das suas grandes apreensões é ver as crianças, em contacto com outros mundos e outras culturas, perder a sua identidade ancestral. Apreensão compreensível, até comovedora pelo que revela de apego a valores inestimáveis que se perdem no fundo do tempo e que caracterizam a idiossincrasia dos povos.
Michel Giacometti, italiano apaixonado pelos portugueses, um dos grandes investigadores da música tradicional portuguesa, afirmou: "A consciência da nossa identidade como povo obriga ao conhecimento da nossa cultura rústica - não apenas das suas manifestações vivas, mas também das suas formas periclitantes ou que vivem tão somente na memória dos mais velhos." E ele sabia melhor do que ninguém do que falava.
Em todo o caso, o Otman é um muçulmano tolerante, como a maioria dos muçulmanos. Quando nos encontramos, fala-me com veneração dos profeta Jesus e Abraão. Está-me sempre a relembrar as nossas raízes culturais comuns de povos mediterrânicos. Eu acredito. Principalmente quando nos reunimos para saborear uma boa sardinhada que eu acompanho a golpes de vinho tinto e ele, mais austero, com umas goladas de água.
Certo dia, para o pôr à prova, convidei-o a visitar a magnífica Catedral de Saint-Patrick, situada no “Centre-Ville”. Para meu espanto, mal franqueou o portal da entrada, o Otman descalçou os sapatos. “Nunca entraria calçado num lugar sagrado” justificou-se perante o meu olhar perplexo. Depois, com a maior das tranquilidade, andámos por ali, uma boa hora, a admirar aquelas maravilhas da arte sacra.
Sempre supus que o primeiro rei-poeta do território lusitano fora o D. Dinis. Isto até ao dia em que o Otman me falou do rei-poeta Al-Mu'tamid. Nascido em Beja no ano 1040, passou a maior parte da sua juventude em Silves antes de ser coroado rei de Sevilha. Vitimado por guerra fraticida, acabou por morrer em 1095, desterrado em Aghmat, perto de Marraquexe.
Hoje é reconhecido com um dos maiores poetas árabes da Península Ibérica.
Um dos seus poemas mais celebrados foi dedicado à bela Silves, uma terra que nunca conseguiu esquecer no seu duro desterro. Mas Silves também não o esqueceu, perpetuando a sua memória na magnífica Praça de Al-Mu'tamid, como descobri recentemente.

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abu Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
E lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Nos jogos do amor
Com a da pulseira curva
Igual aos meandros da água
Enquanto o tempo passava...
E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar
Às vezes o do seu copo
E outras vezes o da boca.
Tangia cordas de alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas retirava o seu manto
Grácil detalhe mostrando:
Era ramo de salgueiro
Que abria o seu botão
Para ostentar a flor.

“É ou não verdade que temos um rico passado cultural comum?” pergunta-me o Otman, orgulhoso, enquanto tira a pele a mais uma sardinha.
Perante os factos, não há argumentos. Nestas ocasiões propícias à conciliação, apetece-me tranquilizar o seu receio quanto ao futuro dos filhos. Apetece-me dizer-lhe que para além das diferenças que distinguem, e tantas vezes dividem, os povos, muito mais importante é o legado universal que nos une e no qual nos reconhecemos todos filhos da mãe-Terra. E ele, estou convicto, amolecido pelo manjar que o mar comum generosamente nos oferta, compreenderá o sentido mais profundo das minhas palavras.

Domingo, Novembro 09, 2008

Elogio da mestiçagem


Todos os povos são mestiços. Todas as culturas são mestiças. Todas as línguas são mestiças. Todos nós somos mestiços.
Basta percorrer, de olhos abertos, as páginas da História para nos apercebermos da realidade, cada vez mais evidente, deste imenso e fascinante laboratório de mestiçagem que sempre foi a Terra.
É talvez por isso que a eleição de Borack Obama como presidente dos EUA está a despertar tanta emoção. Subitamente, Obama transformou-se aos olhos de toda a humanidade no símbolo do homem novo num mundo novo.
Será ele, encarnação de tanta mestiçagem, o passo por acontecer do poeta e escritor luso-moçambicano Mia Couto?

POEMA MESTIÇO

Escrevo Mediterrâneo
na serena voz do Índico
Sangro norte
em coração do sul


Na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo


Hei-de começar
mais tarde

Por ora
sou a pegada
do passo por acontecer

Tal como o sonhou o poeta moçambicano José Craveirinha, será Obama o maestro capaz de encontrar o ritmo certo para que as palavras, que afluem à boca dos homens pelos mais diversos caminhos, se tornem todas irmãs?

A Fraternidade das palavras


O céu
É uma m´benga
Onde todos os braços das mamanas
Repisam os bagos de estrelas.

Amigos:
As palavras mesmo estranhas
Se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo
para serem todas irmãs.


E eis que num espasmo
De harmonia como todas as coisas
Palavras rongas e algarvias ganguissam
Neste satanhoco papel
E recombinam o poema.

m´benga - pote de barro
mamanas - mulheres
ronga – dialecto mais meridional do grupo linguístico banto tsonga. É falado numa pequena área que inclui a cidade do Maputo
gangussam – namoram
satanhoco – uma coisa que não presta

Terá chegado a hora de os homens poderem, orgulhosamente, assumir a sua verdadeira identidade, cidadãos da mesma pátria, a Terra, sem, contudo, excluir ou renegar as suas múltiplas e preciosas pertenças particulares?
Terá chegado a hora de dar alma ao poema de Miguel Torga dentro em breve eternizado no granito dum banco no boulevard Saint-Laurent, a nossa Main ?

Ter um destino é não caber no berço
onde o corpo nasceu,
é transpor as fronteiras uma a uma
e morrer sem nenhuma

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Vem aí uma nova era


“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
(...)

Assim falava o génio de Camões. Sempre assim foi, desde que o mundo é mundo. Sempre assim será enquanto a Terra rodar em torno do sol.
As eras sucedem-se umas atrás das outras com o seu inevitável cortejo de transformações.
Estamos a atravessar a longa era dos vampiros. Com as lúgubres capas negras a esvoaçar aos ventos da mudança, cada vez mais grotescos na sua desorientação com o rumo dos acontecimentos que já não conseguem controlar, ainda são os mesmos do poema do José Afonso:

“No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas
(...)

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafad
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada”
(...)

Mas uma nova era está a bater-nos à porta. Virá mais cedo de que muitos esperavam. Há prenúncios encorajantes no ar que respiramos, nos ventos que sopram, nos indícios que nos chegam de todo o lado.
Uma era em que o fulgurante progresso tecnológico dos tempos que correm será finalmente posto ao serviço da prosperidade e do bem-estar de toda a humanidade. A tão apregoada globalização, que até agora foi pretexto para concentrar a riqueza nas mãos de uma oligarquia financeira, rapace e sem escrúpulos, só agora irá realmente começar a dar frutos.
Infelizmente, a travessia do deserto, será longa e dolorosa. Mas depois da tempestade, vira a bonança. Quando passar a tormenta que nos flagela, o mundo será melhor. Balizado por valores mais nobres durante tanto tempo atirados para o sótão das velharias sem préstimo, no sinistro reinado do deus-cifrão.
Por que caminhos lá chegaremos, ninguém o sabe ainda. No meio de tanta incerteza, só a certeza do poeta José Régio :

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(...)

É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!"

Domingo, Setembro 21, 2008

livro-me do desassossego



Não é segredo para ninguém que o Onésimo Teotónio Almeida é mestre consumado na arte de cronicar. A sua escrita ágil, irónica, fogosa, atravessada por centelhas de génio, é da melhor literatura que Portugal produz.
Sempre numa roda viva, pé-cá pé-lá, sobre o seu rio Atlântico, o Onésimo, de quando em vez escreve-me rápidos e-mails, troca dois dedos de conversa, pergunta-me se já me enviou este ou aquele livro. E, para minha grande alegria, passados dias, lá encontro na caixa do correio mais uma obra, sempre com uma dedicatória cheia de carinho que me deixa deslumbrado e enternecido. Desta vez escreveu esta pérola: “Para o Manuel Carvalho, vizinho e companheiro de jornada nesta experiência norte-americana salpicada de pátria.” Estes salpicos de pátria são de arrepiar qualquer um.
Melhor apetrechados do que eu para o desempenho desse ofício, deixo aos críticos literários a tarefa de lhe dissecarem a obra, autêntico monumento erguido, com cuidados de ourives da palavra, à vivência multicultural. Para mim, para além de todas as qualidades literárias e acima de todas as outras definições, a obra do Onésimo será sempre, nem sei bem por quê, coisas da infância, creio, um farto e interminável trigal dourado, salpicado de rubras papoilas. O trigal é a prosa densa, profunda, inquieta, questionadora. As papoilas são a brejeirice, o humor vivificante, as piadas sempre bem colocadas e repletas de inteligência.
Como ainda cheira a férias e a época não é propícia para grandes elucubrações, para vosso regalo e inebriamento dos sentidos, aqui vos deixo um colorido ramalhete de papoilas colhidas, avulsamente, na obra “livro-me do desassossego (Temas e Debates-2006)”.

“(...)Salazar, num famoso discurso de 1965, confessava-se, no fundo, um rural e acrescentava que, se pudesse escolher, seria um agricultor.
(...) Ao ouvir Salazar na sua confissão pró-agrária, um português descontente exclamara: Então, põe-te a cavar.”

“(...) vem a propósito lembrar a magnífica descoberta daquele outro sociólogo segundo quem a verdadeira causa do divórcio é o casamento.”

“(...)ali pelos arredores de Vila Real, uma noiva casara-se na virgindade tradicional e obrigatória. Na noite de núpcias cumpriu respeitosamente o matrimónio obedecendo aos desejos e comandos do marido. De manhã, na casa de banho, aconteceu dar de repente com ele nu, e não conteve a interrogação:
- Mas isso gasta-se assim tanto?”


“(...)Conto aos meus comensais a do outro que estava em casa da amante. Toca o telefone. É o marido. E ela, entre a garganta e o descrédito, a querer despachar a conversa:
-Hum-hum, hum-hum...Sim, sim...Hum-hum...
Depois o amante intrigado:
- Quem era?
- O meu marido.
- Que queria?
- Era só para dizer que hoje vai chegar tarde a casa...está no bar...a jogar bilhar...contigo.

“(...)Lembro-me bem dos anos de Trudeau constante notícia da primeira página. (...)Não esqueço uma tirada definidora do seu espírito:
O líder da Oposição atacara-o no Parlamento, em Ottawa, acusando-o de esbanjar o erário público na construção de uma piscina na sua residência particular. Trudeau foi ao pódio e, com suprema calma, explicou que sim, era verdade estar a piscina a ser feita. Mas acharia o líder da Oposição ser isso para benefício dele, Primeiro-Ministro? Não tinha ele a experiência do que acontece quando se fazem festas em casa? Que anfitrião desfruta do tempo livre? Em sua casa, onde é continua a roda-viva de visitantes, não lhe resta nenhum tempo paara nada. A piscina, essa gozá-la-iam naturalmente os visitantes mais do que ele. E em golpe final:
- Além disso, toda a gente sabe como a minha casa esteve e está sempre aberta a toda a gente, especialmente aos canadianos. Serão todos bem-vindos a dar um mergulho na piscina. Especialmente o senhor líder da Oposição. De preferência antes de a encherem.”

Domingo, Junho 08, 2008

10 DE JUNHO EM MONTREAL (2008)


Mais um 10 de Junho. Tempo de honrar a Comunidade.
Honra às escolas de língua portuguesa. Honra às associações culturais e recreativas. Honra às instituições religiosas. Honra às instituições financeiras. Honra aos orgãos de comunicação social. Honra aos grupos folclóricos. Honra às filarmónicas. Honra aos nossos estabelecimento de restauração. Honra às gentes anónimas e humildes que, com mãos calejadas, construíram, pedra a pedra, a Comunidade que somos.

Como escreveu Manuel Alegre:
“Com mãos se rasga o mar.
Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas masde mãos.
E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.”

Não obstante um percurso tantas vezes atribulado, com as suas querelas e reconciliações, as suas grandezas e misérias, as suas arrogâncias e humildades, os seus triunfos e fracassos, as suas alegrias e dores, a Comunidade tem sabido, ao longo dos anos, traçar um rumo guiado pelo bom senso e preservar a nossa língua e os nossos valores.
Preservar a língua portuguesa como instrumento de comunicação da nossa cultura e de expressão das nossas emoções mais profundas, componente fundamental da nossa sobrevivência enquanto grupo com uma identidade própria. Preservar os valores seculares mais arreigados que nos definem e identificam como portugueses e lusodescendentes, quase sempre entrelaçados com uma espiritualidade profunda que tem a sua expressão mais significativa e relevante em manifestações de religiosidade popular como as festas do Santo Cristo e do Espírito Santo.

Jorge de Sena, destacado escritor português, que viveu grande parte da sua vida na Califórnia, onde faleceu em 1978, escreveu frequentemente sobre estes temas, numa preocupação constante com o futuro dos filhos.
A propósito da língua, deixou um texto de grande amargura que é uma lição exemplar para todos nós:

“Ouço os meus filhos a falar inglês entre eles. Não os mais pequenos só mas os maiores também e conversando com os mais pequenos. Não nasceram cá, todos cresceram tendo nos ouvido português. Mas em inglês conversam, não apenas serão americanos: dissolveram-se, dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia, das tradições de uma linguagem, de uma raça, daquilo que se não diz com menos que a experiência de um povo e de uma língua. Bestas. As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem esquecidas noutras, morrem todos os dias na gaguez daqueles que as herdaram: e são tão imortais que meia dúzia de anos as suprime da boca dissolvida ao peso de outra raça, outra cultura. Tão metafísicas, tão intraduzíveis, que se derretem assim, não nos altos céus, mas na caca quotidiana de outras.”

Desiludido com o materialismo galopante da sociedade americana, escreveu aos filhos uma carta de grande humanismo,onde, num grito do fundo da alma, realça a importância da herança que nos coube e que urge transmitir aos vindouros “em memória do sangue que nos corre nas veias”:

CARTA A MEUS FILHOS...
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
(...)
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. (...)
E por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

Terça-feira, Agosto 28, 2007

De Cicouro ao Pico da Pedra


Já em tempos escrevi que há certas pessoas escolhidas, que vieram a este mundo para desfraldar ao vento a bandeira da mudança, para agitar as almas atoladas no marasmo dum quotidiano sem história. São elas o fermento da transformação, tocadas pelo condão, pela graça, de dar forma ao informe, voz ao silêncio, luz às trevas, sentido ao incompreensível. O Onésimo Teotónio Almeida, com todo o vigor da Palavra que o habita, é uma delas.
E mais uma vez o comprovei. Há tempos, enviou-me um e-mail perturbador, que virou toda a minha vida do avesso. Rezava mais ou menos assim: Manel, em recente viagem a Portugal andei por terras de Miranda do Douro e fui até Cicouro, à sua terra. Perguntei por si mas disseram-me que nos últimos anos já não aparecia, que ficava por Miranda quando ia a Portugal.
Era verdade. A verdade nua e crua. Incompreensivelmente, sem justificação, nos últimos anos, vezes sem conta me ficara por Miranda, sem coragem para galgar os escassos vinte quilómetros que me separavam da terra que me vira nascer.
Assaltou-me uma mescla de tristeza e de vergonha. Compenetrado do meu indigno e imperdoável comportamento, logo ali, frente ao computador e ao e-mail apontado ao coração como uma adaga acerada fiz a promessa: este ano irei a Cicouro.
E cumpri. Foi uma peregrinação purificadora e catártica. Calcorreei ruas empedradas e tortuosas. Andei por todo o lado. Mostrei-me. Encontrei familiares perdidos. Estampei na fronte um cartaz que berrava: estou aqui, o filho pródigo voltou, ainda não vos esqueci.
Sempre num turbilhão, voraz, vasculhei todos os recantos do meu imaginário infantil: a casa onde nasci; a fonte de chafurdo onde tantas vezes me dessedentei; o bebedouro dos animais onde, em dia aziago, quase me afogara; galguei velhos caminhos poeirentos castigados pela canícula; embrenhei-me pela imensidão dos trigais dourados; sorvi o perfume inebriante dos braçados de flores silvestres; refresquei-me nas sombras frondosas dos castanheiros; numa alegria a irromper do fundo da memória da infância, assaltei pombais encarrapitados nos montes e alvoroçei a paz das revoadas de pombos selvagens.
Só quando o fôlego me faltou e as pernas fraquejaram de vez , é que me recolhi na abrigada da Casa do Povo onde enxuguei o suor da fronte e saboreei uma cerveja entre dois dedos de conversa com um pequeno grupo de jovens arreigados aos valores da terra ancestral. Jovens generosos que ainda acreditam que aquelas aldeias raianas, quase desertas, poderão um dia renascer das próprias cinzas como a fénix da lenda e alcançar uma prosperidade que parece tão longínqua.
Finalmente, sentia a alma apaziguada mas o meu esgrimir de emoções com o espírito do Onésimo não se ficou por aqui. Se ele tivera a coragem de se aventurar até à minha aldeia natal perdida no planalto mirandês, certamente uma das últimas fronteiras de Portugal, também eu, em réplica exemplar, iria visitar a Pico da Pedra, a terra que o viu nascer.
Assim acertado na minha cabeça, na viagem de regresso a Montreal, detive-me um punhado de dias em S. Miguel e, numa pausa dos maravilhosos passeios pela ilha deslumbrante, talvez um dos últimos paraísos deste mundo tão violentado, foi uma enorme alegria para mim deambular, sem pressas, a sorver a história de cada pedra, pelas ruas adormecidas e tranquilas do Pico da Pedra.
Lugar onde a paz parece continuar a reinar como em 1936 quando Luís Dias Martins Carreiro compôs o Hino do Pico da Pedra:
(…)
Vivemos em doce vida!
Numa paz doce e ditosa.
Nesta aldeia tão querida,
Terra linda tão formosa.
(...)


Já agora acrescento, num último retoque, em jeito de florilégio, que na aprazível e polivalente Casa do Povo está instalada uma interessante biblioteca denominada precisamente “Sala de leitura Onésimo Teotónio Almeida”. Prova real de que a aldeia não esqueceu um dos seus mais dilectos filhos.
Após tão frutuosa viagem, tudo se parecia conjugar para um regresso tranquilo a Montreal. Mas (in)felizmente a ambição dos homens é insaciável. Por mais que a tentasse afugentar, não me saía da cabeça a soberba descrição que no livro Onze Prosemas o Onésimo faz da fulgurante aparição do Pico com que se deparou, inesperadamente, numa das suas frequentes viagens aéreas entre as duas margens do seu rio Atlântico(1).
Regalem-se com este suculento naco de prosa, a evocar um realismo mágico de qualidade insuperável que um Borges ou um Garcia Marques não desdenhariam assinar:
O comandante avisa We are presentrly fflying north of Terceira Azores quando eu julgava deveríamos andar a roçar os gelos da Gronelândia e súbito uma força atravessa-me a espinha endireita-me na cadeira e faz-me abrir uma nesga da minha persiana (...)
Nada de ilha e nem sequer mar só nuvens e mais branco e de repente uma alucinação Não é a serra de Santa Bárbara essa não fura assim este algodão espesso mas o Pico ele mesmo ou a ponta dele um cone de azul plantado sobre aquela imensidão de branco sereno e altivo imponente e majestático altaneiro e belo
(...)Apetece-me chamar os vizinhos dar um berro no microfone ABRAM AS PERSIANAS E VEJAM ESTE ESPECTÁCULO mas ninguém mesmo ninguém sabe ou sequer preocupa em saber o que vai lá fora são todos estrangeiros lêem livros em inglês vêm de Londres e vão para New York O que lhes poderá dizer a treta de um triângulo azul escanchado nas nuvens e já me dá vontade de partir a cara a quem na minha cabeça se referiu ao Pico em termos assim tão grosseiros(...)

É de ficar com água na boca, reconheçam lá. Já agora que estava em maré alta de emoções e mesmo de sorte, levando mais longe o meu arrojo, talvez também eu pudesse regalar-me com tão suculenta iguaria do espírito.
Nesta feição, enquanto ainda sobrevoava o arquipélago dos Açores, eu bem esticava o pescoço e espiolhava o espesso manto de nuvens na esperança de que o Pico tivesse forças para irromper por ali acima e mostrar-se em toda a sua magnificiência ao meu olhar deslumbrado.
Mas de nada me valeu o esforço hercúleo. Talvez por só os escolhidos dos deuses poderem usufruir de tal privilégio. Talvez por a minha crença não ser suficientemente forte. As nuvens continuavam espessas, o céu escurecia cada vez mais a pressagiar tempestade. Finalmente, num último golpe de misericórdia, a voz monocórdica do comandante do avião anunciou que iríamos atravessar uma zona de grande turbulência e que deveríamos apertar os cintos de segurança. Adeus gloriosa alucinação do Pico.
Era preciso render-me à evidência. Baixar os braços. Encarar de frente a realidade. E reconhecer que o Onésimo continua imbatível.

(1) Ao fim de vinte e cinco anos de fazer-me ponte sobre o Atlântico, pé-cá, pé-lá, desembarcando em Lisboa, Ponta Delgada, Lages, ou Boston, o oceano tornou-se bem mais estreito e instalou-se num quotidiano de onde se vê sempre a outra margem, com as ilhas de permeio a facilitarem o salto.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Vinho do Porto




No outono de 1679, um barco com um carregamento de vinho do porto largou a cidade do Porto com destino a Londres. O que nessa época era frequente, a meio da viagem, foi atacado por um corsário francês a custo do qual conseguiu escapar, navegando para o alto mar.
Acossado por violenta tempestade, afastou-se imenso da sua rota pelo que o capitão tomou a decisão de ir fundear em S. João da Terra Nova para reabastecimento e repouso da tripulação.
Impossibilitados de prosseguir viagem devido ao rigor do inverno, só na primavera seguinte se fizeram de novo ao mar. Finalmente, chegados a Londres, constataram, com natural espanto, que a prolongada estadia na Terra Nova tinha dado ao vinho um aroma e um sabor agradavelmente diferentes.
Desde então, a companhia proprietária do carregamento passou a enviar anualmente grandes quantidades de vinho para envelhecer na Terra Nova.Assim surgiu este celebrado porto e esta espantosa lenda perpectuada nos rótulos das garrafas dos portos Newman's.
Imagem:Cena da chegada do "Retriever" à Terra Nova com um carregamento de vinho do porto, em 1892. Mural existente no Newman's Wine Lodge, Portugal